Nesse cenário de mais completo desespero e auto piedade vi uma pequena flor repousar no chão. Todos transeuntes que tentam pegar essa flor seja para próprio usufruto ou para cuidar da pequena flor caída em milhares de cacos do vidro, a largam no mesmo lugar. O vidro da minha alma corta alguns passantes mesmo sem motivos aparentes. E ainda que os mais teimosos atravessem todos esses vidrinhos e se cortem para salvar a flor, a frustração de chegar lá e perceber que a flor não é real, e sim de plástico, é tão grande que eles deixam a flor onde ela está e seguem seu caminho procurando se curar dos vidros que a protegiam.
Essa sou eu. Vários cacos de feridas que parecem incuráveis e de cicatrizes tão grandes que me impedem de esquecer e seguir em frente. Ainda que varra todos esses cacos, quando eu mesma chegar em minha flor, vou ver que ela não é viva. Eu posso parecer viva e bonita para alguns ao olharem de longe sem a menor perspectiva do vidro, porém uma leve aproximação já mostra que eu não passo de um pedaço de pano e plástico sem vida que colocou todos os artifícios possíveis ao seu redor para que não me desmontem.
Sigo na síndrome de Pinocchio esperando o dia que me tornarei flor de verdade. Enquanto isso me arrasto pelos meus cacos, sem vida, sem alma. Sigo rezando para que ninguém resolva arrancar a flor de plástico do lugar, para que meus cacos não firam as pessoas que se aproximam, mas isso tudo é inevitável.
Eu realmente não passo de uma armadilha bem feita por mim mesma. Uma flor sem um único sinal de vida. Um vidro tão estilhaçado que não tem conserto. Uma pessoa perdida dentro de si.


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